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Carta de uma Venezuelana a Nicolás

27 Dez

Mapa-de-Venezuela
Quando éramos pequenos, de acordo com os costumes de nossa família, escrevíamos uma carta para pedir brinquedos, presumindo ganhar por sermos boas crianças. Em algumas casas, o destinatários era o menino Jesus, em outras papai noel, em outras os reis magos.

Na minha família, recebíamos um presente no natal, do menino Jesus, outro presente no ano novo, e um mais no dia dos reis, mas este ultimo somente se havíamos deixado os sapatos em um lugar visível.

As vezes acontecia de o menino Jesus, deixar um presente na casa de nossa avó, e o papai noel deixava outro na nossa. Parecia que tinham problemas de logística e se perdiam nas zonas, mas nunca nos dias. Um pacote era deixado debaixo da arvore, no natal, outro pacote no primeiro dia do mês de janeiro, e outro no dia dos reis magos.

Quando você começa a pentear os cabelos grisalhos, se lembra com carinho daqueles dias, em que tua vida se resumia a brincar, comer e dormir. Terrível, não é chegar a idade adulta, mas é ver a Venezuela, do pão com presunto, gaita e ponche, desaparecer debaixo de uma enorme mancha de sangue e miséria.

É por isso que este ano, mesmo não sendo mais uma garota, vou escrever uma carta cujo destinatário, não é o santo, ele inspira qualquer coisa, menos ternura e respeito. Conhecendo suas famosas e múltiplas limitações, em especial intelectualidade, peço aos aduladores que estão ao seu lado que a leiam, e expliquem detalhadamente, inclusive ajudem desenhando para que ele entenda. Em consideração, eu vou escrever como se eu tivesse sete anos, assim será mais compreensível. A carga de sarcasmo deixarei para nós, porque ele não sabe o que é isso.

Esta é a carta para um Nicolás não santo:

“Querido Nicolás”

Te escrevo esta carta de longe, porque este ano a guerra econômica e o desvio dos aviões ao mundial do Brasil, me obrigaram a não passar as festas com meus parentes queridos. Garanto que nada me agradaria mais, do que colocar na minha mala, além de alimentos e medicamentos, um par de sapatos, um traje de banho, e passar estes dias, alternando praia e sol com a ida aos supermercados, salvando minha mãe da humilhação de ter que dar sua identidade para comprar azeite. Mas suponho que quando acabar este atentado do teu extraordinário governo, poderei voltar a minha casa, pelo menos no Natal.

Quero aproveitar, já que és tão generoso e solidário, com outros Países, para pedir um presente em nome da maioria dos venezuelanos. Como bem sabes, somos muito bons, fizemos filas para comprar comida, quando há, aprendemos economia medieval fazendo trocas de medicamentos com vizinhos e desconhecidos, temos lutado contra o sonho, para acompanhar no rádio e na televisão, os teus capangas matar estudantes desesperados pela liberdade. Também somos obedientes e nos adequamos aos inúmeros cortes de eletricidade. Aprendemos a tomar menos banhos, misturar shampoo com agua e usar desodorante como se fosso ouro.

Temos deixado que uma epidemia se apoderasse dos quatro cantos deste País, carregamos nossas crianças nuas, porque não há fraldas para vesti-los. Nos acostumamos a comprar a roupa que nos vendem, como se fosse um milagre divino. Permitimos que gaste nosso dinheiro passeando pelas ruas de Manhattan, presenteando o pouco que ainda sobra nos cofres públicos. Permanecemos tranquilos sem saber o destino de bilhões de dólares do petróleo durante esses anos. Não reclamados por nos submeter a um controle de cambio, que nos obriga a ver o aumento dos preços a cada dia, e as vezes a cada hora.

Temos alcançado a suprema felicidade, vendo noticias compradas que mostram um País de sonhos, como se vivêssemos num conto de fadas. Apesar de não estar de acordo, fazemos parte da tua luta contra o capitalismo selvagem e seguimos vivendo para evitar não morrer como cães. Acolhemos e protegemos as vitimas das atrocidades que acontece todos os dias; porque para ti nesta “pátria grande”, não tem castigo. Estamos sendo pacientes ao longo desses anos, mas não sei até quando.

Como vês, temos sido um povo exemplar, um povo que todo ditador sonharia para poder dormir a noite. Por isso querido Nicolás quero pedir um presente para esse maravilhoso e generoso País:
Pega esses bilhões de dólares, e vai desfrutar em outro País. Diga a teus amigos, para comprar passagens e fujam com as suas maletas, as mesmas que eram camufladas levando nosso dinheiro pelos aeroportos do mundo, e comecem a desfrutar como fazem os ladrões quando roubam qualquer venezuelano.

Este País desgraçadamente, pode começar do zero, com as mãos vazias, com vontade de viver, com um único remanescente após um assalto, podemos continuar sem você, sem reservas, sem palavreado, sem ataduras e sem essa pátria de papelão. Você não vai fazer falta, não te preocupes, nós, seguiremos adiante, não de imediato, não sem esforço, mas seguiremos em frente. Só necessitamos que nos dê a liberdade.

Envio essa carta hoje, para que chegue depois dos primeiros festejos de Natal, não a confunda com uma piada de primeiro de abril, organize tua partida como se fosse uma das tantas farras corruptas em que você usou o aviõe oficial e que beneficiou tanto a sua revolução, esses voos em que você convidava familiares, amigos, mordomos, babás e tantos outros beneficiários ilegais.

Veja, como somos esplêndidos, estamos te dando presentes, desde que prometas nunca mais voltar. Como você pode ver, é um pacote completo de benefícios. Perdendo também se ganha, diria minha Avó.

Pense Nicolás, pedimos pouco, para tudo que estamos dando.

Te envio uma saudação de natal, guiada pela estrela de Belém, porque se eu deixar a cargo da Cruz del Ávila, é possível que um apagão deixe as escuras o caminho, e a mensagem pode não chegar.

YEDZENIA

http://yusnaby.com/carta-de-una-venezolana-a-nicolas/

 
 

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