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Falando com minha avó sobre seus 12 abortos

02 Fev

Ex-URSS, o primeiro país a legalizar o direito ao aborto no mundo (1920).

Na cultura russa, a avó é o núcleo de qualquer família. Quando nossa família imigrou para Vancouver de Moscou em 1995, trouxemos a tradição conosco; ainda criança, eu passava muitas tardes na companhia da minha vó. Mesmo jovem, lembro de pensar que ela era uma catástrofe ambulante de contradições, como se alguém tivesse duas personalidades, todas num corpo redondo e macio de um metro e cinqüenta.

Sempre que ela se sentava ao meu lado para me ensinar russo, era inacreditavelmente paciente e doce. No entanto nas conversas cotidianas, ela tinha uma língua afiada, desconsiderava as pessoas e era brutalmente venenosa. Nossa relação era difícil, para dizer o mínimo — quanto mais velha eu ficava, menos entendia como uma mulher formada em química, apaixonada por cinema e preocupada com a família podia ser tão corrosiva com as pessoas que amava.

Um dia, minha mãe tentou me dar uma resposta. “Você sabe que sua vó não teve uma vida fácil”, ela disse. “Ela fez 12 abortos”.

Fiquei chocada. Quando eu era menina, minha família sempre descreveu as mulheres soviéticas como matriarcas destemidas — sempre cozinhando sopa em panelas gigantescas para sua família; levavam três horas pra conseguir a carne. Eu sempre achei que as soviéticas se focavam no sustento da família, e nunca me ocorreu que abortos eram tão comuns.

Curiosa com o que parecia ser uma contradição, procurei no Google sobre as taxas de aborto na URSS e percebi que minhas suposições estavam longe da verdade. No final do século 20, a União Soviética tinha uma das maiores taxas de aborto do mundo — segundo o New York Times, muitas mulheres “consideravam os abortos, financiados pelo governo, a principal forma de controle de natalidade”. Mas mesmo depois de saber disso, continuei estarrecida com a situação da minha avó: doze abortos, parecia ser uma média muito alta para uma pessoa, especialmente para uma mulher educada como minha avó.

Decidi saber mais sobre sua experiência de vida, perguntando a ela. Enquanto esperava ela atender a ligação por Skype, fui ficando cada vez mais nervosa. Essa mulher nunca tinha usado a palavra “sexo” na minha frente. Por quê, do nada, ela estaria disposta a contar esse tipo de história pessoal? Mas assim que mencionei o assunto, minha avó me pareceu calma e nem um pouco emotiva, como se estivesse relembrando o enredo do último filme que assistiu. Apesar de manter a compostura e uma aparente calma, senti uma certa agitação interna; minha vó não conseguia parar de falar.

“Nunca falei com ninguém sobre isso”, ela disse. “Ninguém nunca perguntou.”

“A partir do momento em que uma mulher pisava num hospital procurando um aborto, até o momento que ia embora, era tratada como uma criminosa.”

Minha vó nasceu em 1939 em Kiev, Ucrânia. Quando bebê, ela teve tuberculose; quando se curou, ela desenvolveu diabetes e problemas cardíacos. Criada por um pai solteiro severo num apartamento minúsculo, ela superou a saúde ruim, tirou notas altas na escola e acabou se mudando para Moscou, onde se formou em química na universidade. Logo depois disso, ela conheceu meu avô — um simpático nerd amante de filmes que comandava o Festival de Cinema de Moscou — e teve minha mãe aos 24 anos. Minha vó teve seu segundo filho aos 35; no intervalo desses 11 anos , ela fez a maioria de seus abortos.

Na época, os cidadãos soviéticos estavam bastante familiarizados com a expressão em particular: “Não existe sexo na União Soviética”. Segundo minha vó, sexo era um tabu visto como uma distração para os cidadãos, que deveriam estar cumprindo suas obrigações como bons trabalhadores comunistas.

Por causa dessa atitude, informações sobre anticoncepcionais modernos eram difíceis de se encontrar — mesmo que opções como a pílula, camisinhas e DIUs estivessem disponíveis na época, embora em pequenas quantidades. “Educação sexual era muito, muito rara no sistema soviético”. Disse Anna Temkina, professora do programa de estudo do comportamento humano, da Universidade de São Petersburgo, ao Broadly. “Talvez algumas escolas cobrissem coisas básicas sobre o sistema reprodutivo feminino, mas nada sobre anticoncepcionais ou prazer sexual.”

Temkina também apontou que as únicas pessoas com conhecimento contemporâneo sobre anticoncepcionais eram as que tinham sorte de colocar as mãos em publicações estrangeiras, que ficavam escondidas em bibliotecas e só estavam disponíveis para as maiores universidades. “É por isso que as mulheres preferiam métodos mais ‘tradicionais’ de controle de natalidade, como tabelinha ou tirar antes de gozar”, disse ela. “Eles não tinham o hábito ou a perspectiva de usar novas formas de anticoncepcionais.”

Mesmo sem educação sexual formal, os abortos eram subsidiados pelo governo da URSS. Mas, segundo Temkina, havia muito estigma associado com o término da gravidez nos hospitais públicos. “Do momento em que uma mulher entrava num hospital procurando um aborto até o momento em que saía, ela era tratada como uma criminosa, uma mulher desgraçada”, ela disse. “A mulher se envergonhava por dois motivos: por procurar prazer sexual e por não querer cumprir seu dever de mulher e se tornar mãe.”

Minha vó concordava com essa afirmação. “Para a maioria das mulheres, esperar um aborto era como estar numa esteira industrial. Numa manhã normal, você tinha dez mulheres na fila do hospital para abortar”. “Então, sempre que eu precisava de um aborto, eu saía perguntando por uma pessoa dentro de um hospital público, para quem eu pudesse pagar por fora e receber um tratamento melhor.”

Segundo minha vó, pagar extra garantia um tratamento mais humano do que você receber um típico aborto financiado pelo governo. Quando perguntei como eram os médicos que realizavam os abortos nos hospitais públicos, a voz dela ficou ríspida. “Eles não eram simpáticos nem encorajadores”, ela disse. “Eles riam de você e te diziam para calar a boa e parar de chorar. Eles não tinham coração e não sentiam nada pelas mulheres que estavam fazendo os abortos.”

Essa falta de empatia se estendia a todo o tratamento médico que as mulheres recebiam. Segundo minha avó e a professora Temkina, as mulheres que passavam por abortos subsidiados não recebiam anestesia. “Se estava fazendo um aborto de graça, você era levada de cadeira de roda para uma sala fechada por uma cortina, e o único analgésico que recebia, era gelo”, disse minha vó. “Os médicos esperavam você ficar amortecida e faziam o procedimento.”

“É chocante para mim que eles não usassem anestesia”, disse Temkina, apesar de não ter certeza por que isso acontecia. “Talvez porque não houvesse tempo suficiente ou uma equipe disponível para aplicar a anestesia. Ou talvez houvesse um limite para os tipos de anestésicos que os médicos podiam acessar; por exemplo, mesmo tratamento dental era feito sem anestesia na URSS.”

Você pode pensar que com tantas mulheres abortando e ouvindo essas histórias de terror, elas se organizariam para lutar por direitos básicos, mas essa não era a mentalidade na época. “Como as mulheres eram humilhadas por seus abortos no sistema médico, elas não sentiam que podiam tornar a questão pública”, explicou Temkina. “Como era algo vergonhoso, o aborto não era discutido na esfera pública.”

Encarando tal estigma e a falta de qualidade no tratamento, muitas mulheres da URSS simplesmente optavam por procedimentos ilegais de fundo de quintal, segundo a minha vó. “Muitas mulheres achavam pessoas que faziam isso em casa, e era horrível”, ela lembrou. “Essas pessoas fingiam que eram profissionais, mas só queriam dinheiro. Algumas mulheres que trabalhavam como faxineiras nos hospitais mentiam que eram médicas e enganavam as grávidas. Algumas mulheres morriam por causa disso. Eu sempre ouvia histórias assim em Moscou.”

Várias causas contribuíram para a taxa astronômica de abortos na URSS; segundo a professora Temkina, não era só porque sexo e sexualidade não eram discutidos em público — também havia uma falta de diálogo flagrante na vida privada. “Um enorme catalisador da taxa de abortos era porque não havia uma discussão aberta entre homens e mulheres sobre sexo”, explicou ela “Discutir sexo não era parte da cultura, mesmo entre marido e mulher. Se os parceiros chegavam a algum tipo de acordo, era sem trocar uma palavra. Se você estava com alguém que não era um parceiro constante, mesmo um acordo tácito estava fora de questão. E claro, havia consequências.”

Minha vó concordou. “Tudo dependia do seu parceiro”, ela disse. “Alguns homens não gostavam de usar camisinha e alguns não davam a mínima se elas furavam ou não.”

Na minha vida inteira, acho que só vi meus avós se beijarem uma vez. O casamento deles sempre me pareceu uma camaradagem cansada e habitual, então não é difícil acreditar que o relacionamento era um exemplo de dinâmica entre pessoas que a professora Temkina descreveu.

“Seu avô sabia quando eu ficava grávida, mas nunca ajudou muito”, disse minha vó. “Ele me levou de carro para fazer o aborto uma ou duas vezes, mas nunca entrou comigo. Culturalmente, não era responsabilidade do homem se envolver nisso. Se você fosse realmente ter a criança, aí a história era diferente: aí eles se envolviam.

Enquanto minha avó e eu terminávamos nossa conversa, fui ficando cada vez com mais raiva e triste por ela. Ela vivia num País que escolheu fazer vista grossa para o fato de muitas mulheres escolherem o aborto — um lugar que se recusava a admitir que essa crença sobre sexualidade e maternidade estava causando um grande mal as mulheres.

“Todo mundo tinha uma atitude muito racional e prática sobre o aborto”, disse minha avó. “Eles nunca mostravam como isso afetava as mulheres.” A União Soviética colocava toda a responsabilidade sexual sobre os ombros das mulheres, e elas não achavam que podiam fugir disso. Na minha opinião, isso realmente mudou minha avó como pessoa — e até hoje, acho que nem ela nem as mulheres da sua geração entendem isso.”

Link para a matéria original: https://broadly.vice.com/en_us/article/ypaagw/talking-to-my-grandma-about-her-12-abortions

 
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Publicado por em 02/02/2018 em Brasil

 

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